OPINIóN
Actualizado 08/02/2026 11:11:26
Miguel Nascimento

Há verdades que só nos alcançam quando vêm embaladas em melodia. Talvez porque a música não argumenta: ela atravessa. “Quem Não Sabe Amar”, de João Só e Tiago Nogueira, faz exatamente isso — diz em poucos versos aquilo que passamos a vida inteira a aprender por tentativa e erro.

“Temos que segurar bem tudo o que gostamos.” A ideia parece simples, quase óbvia. Mas a experiência ensina-nos que não é. Segurar exige atenção, presença, escolha diária. Quem segura mal — por medo, distração ou excesso de controlo — acaba por largar. Não por falta de amor, mas por falta de saber amar.

A canção fala-nos de navegação, e não é por acaso. “Quem tem medo de água não vai navegar.” Amar é entrar no mar sabendo que há correntes, sal nos olhos, dias de nevoeiro. Não há porto sem travessia. Não há relação, projeto ou sonho que sobreviva ao medo constante de se molhar. Queremos chegar inteiros, mas esquecemo-nos de que o caminho implica risco.

Esta música ecoou em mim há dias, enquanto a vida acontecia sem pedir licença. Tocou-me pela simplicidade e, sobretudo, por confirmar algo que já sentia: por vezes precisamos de um “certificado de validade” externo — uma canção, uma frase, um encontro — para reforçar a confiança no rumo que estamos a seguir. Não porque duvidamos sempre, mas porque também nos cansamos.

“Quem colhe uma rosa aceita o espinho.” Eis outra verdade que insistimos em negociar. Queremos o afeto sem fricção, a entrega sem vulnerabilidade, o amor sem possibilidade de perda. Mas amar é aceitar o pacote completo. É compreender que o espinho não invalida a rosa; apenas a torna real.

A canção avança, a vida também. “Quem tudo quer acaba por perder.” Talvez porque segurar tudo com força demais seja outra forma de largar. Amar não é apertar até doer, nem fugir antes de tentar. É segurar com consciência. É estar atento. É não desistir ao primeiro balanço do mar.

No fundo, este não é apenas um verso bonito — é um aviso. Quem não sabe amar fica sozinho. Não por falta de pessoas à volta, mas por falta de coragem para ficar, para atravessar, para segurar bem.

Por isso, sim: temos de aprender a segurar. A amar sem medo da água do mar. A navegar mesmo sem garantias absolutas. Porque só assim evitamos largar o que realmente importa. E só assim, talvez, chegamos ao porto onde faz sentido ficar.

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