O provérbio queniano — “um estômago vazio fará muitos cordeiros se tornarem leões” — indica-nos, no seu sentido metafórico, que a necessidade pode transformar pessoas pacíficas em lutadores fortes e combativos, capazes de resistência e de luta pela sobrevivência ou pela dignidade.
Somos cordeiros e leões em conformidade com as nossas circunstâncias. O caminho dita o nosso papel. Avançamos, recuamos, resistimos e lutamos, sempre pela nossa dignidade.
Há dias, enquanto revia o filme de Ridley Scott, Robin Hood, encontrei um paralelismo com o provérbio africano através da frase repetida e vivenciada por Russell Crowe (Robin dos Bosques): “Rise and rise again, until lambs become lions.”
Ou seja: “Levanta-te e levanta-te de novo, até que os cordeiros se tornem leões.”
Este clássico do cinema (revisitado em 2010) actualiza e renova, na minha perspectiva, o provérbio queniano, valorizando a persistência, a nossa resistência e a transformação que nos acontece todos os dias nas vidas que vivemos.
Somos, muitas vezes, cordeiros no início do caminho: frágeis, atentos, aprendendo a confiar num mundo que nem sempre é gentil. Carregamos dúvidas, medos e a sensação de que a nossa voz é pequena. Mas é precisamente na travessia — nos desafios enfrentados, nas quedas superadas e nas escolhas difíceis — que algo em nós desperta. Como afirma Brené Brown, “a coragem começa por aparecer quando nos permitimos ser vistos, mesmo quando não estamos prontos.” É nesse espaço entre a dor e a consciência que começamos a mudar.
A resistência nasce do cansaço, a persistência cresce da dor e, pouco a pouco, o cordeiro transforma-se em leão. Não por perder a sensibilidade, mas por ganhar coragem. Somos chamados a avançar mesmo quando o medo tenta imobilizar-nos, porque, como afirmou Helen Keller, “a vida é uma aventura ousada ou não é nada.” Aceitar essa aventura é aceitar a transformação.
Tornamo-nos leões quando aprendemos a defender quem somos, a honrar a nossa história e a caminhar com força, sem esquecer a ternura de onde viemos. Cada desafio molda o nosso carácter, e cada superação confirma que dentro de nós sempre existiu mais força do que imaginávamos.