Gosto de soliloquiar, de falar comigo em voz alta, reflectindo sobre a viagem. Quem nunca falou sozinho que “ atire a primeira pedra!” Todos crescemos julgando que os que falam sozinhos são malucos. Quando crescemos efectivamente… quando os anos nos adensam a experiência sabemos a falta que nos faz um bom solilóquio, introspectivo e revelador dos aspectos mais profundos da nossa mente.
Fazemos perguntas retóricas justamente porque sabemos que ninguém nos vai responder. Estamos ali, só nós, em plena solidão soliloquial, mas absolutamente sincera e transparente, sem truques ou filtros, sem interlocutores. Num tempo em que a vida corre depressa precisamos, cada vez mais, do tempo que é nosso por direito para nele gastarmos bem as nossas palavras. Se de vez em quando fizermos isso, conseguiremos arrumar-nos por dentro e repararmos os rombos feitos no casco do nosso navio pelas águas agitadas em que navegamos. Se soubermos organizar-nos para termos tempo connosco, soliloquiando sempre que pudermos, estaremos a ganhar luz para o caminho.
Por isso, não tenhamos medo de parecer loucos por, de vez em quando, falarmos com o nosso “eu”interior. Esse exercício é um direito que nos assiste; é sobretudo um dever que devemos cumprir sem hesitação, precisamente para, resolvendo as coisas connosco, as podermos resolver também com os outros. Soliloquiemos para gerarmos paz e clareza de espírito neste mundo tão complexo onde tudo parece uma enorme gritaria!