OPINIóN
Actualizado 10/01/2024 09:53:18
Miguel Nascimento

Todos gostamos de segurança, de caminhos certos. Gostamos do que é óbvio e claro diante dos nossos olhos. Gostamos da previsibilidade que alimenta vidas mornas e regulares. Há caminhos que se fazem pela certa, com passos seguros e sem grande agitação. A viagem feita assim chegará ao seu destino no tempo certo e programado.

Tudo correrá bem, conforme o previsto. Porém, o caminho andado desta forma não conhecerá o medo da incerteza e também tudo o que está além daquilo que não conseguimos planear e programar. Às vezes, os caminhos certos e demasiado programados também nos matam pelo excesso de regularidade e pelas certezas demasiado certas.

Para crescermos precisamos de abanões que se colhem nas aventuras em que entramos por ousarmos desafiar as incertezas que o dia de amanhã sempre nos traz. Tal como a comida que ingerimos, a nossa vida precisa dos seus temperos, dos seus equilíbrios e desequilíbrios. Podemos sempre optar pela vereda segura e calma. Cada um escolhe o seu caminho e, naturalmente, cada um sabe de si. Porém, tudo o que é demasiado certo e previsível também aborrece e mata.

A este propósito, Oscar Wilde disse-nos que “é a incerteza que nos fascina. Tudo é maravilhoso entre brumas”. Na verdade, a incerteza é uma companheira constante nas nossas vidas mesmo que, por vezes, possamos não nos dar conta disso. As brumas envolvem-nos a cada passo. A incerteza domina o ambiente. Temos receio e medo de avançar.

Mas sabemos que temos que avançar entre as brumas que não nos deixam vislumbrar o caminho. Mas seguimos, mesmo com medo. Avançamos. Como nos disse o sociólogo Zygmunt Bauman, “a incerteza foi sempre o chão familiar da escolha”. Por isso, esse caminho em que seguimos entre brumas é, à partida, uma escolha por oposição ao trajecto certo e tranquilo da previsibilidade. Entre a neblina continuamos com as nossas escolhas que são, em função das circunstâncias, mais difíceis, mas também mais encantadoras.

Às vezes o resultado não é bom, mas a experiência foi altamente enriquecedora. Aprendemos muito com os erros, com as escolhas que fazemos. À medida que vamos avançando, vamos também aprendendo muito sobre o caminho, sobre nós e sobre todos os que nos acompanham. A humanidade brota das dificuldades que geram solidariedades e coesão. As brumas que abraçam todas as incertezas ajudam a fazer “comunidade” uma vez que temos, forçosamente, que nos apoiar mutuamente.

Aí a escolha é pela fraternidade, pela mão amiga que nos agarra no momento certo para não cairmos. E se cairmos lá estará essa ou outra mão para nos ajudar a levantar; quando isso acontece agradecemos, naturalmente. Mas mais importante que isso é o facto de nos formatarmos nessa extraordinária capacidade de ajudarmos sempre quem precisa, sem segundas intenções ou interesses.

Essa é genuinidade do ser humano que importa e que semeia valores e princípios que se cumprem no caminho, sobretudo nas brumas da incerteza. A vida precisa de sal e pimenta. Precisa de tempero das emoções. Para que isso se concretize precisa de correr riscos e seguir por caminhos íngremes e sinuosos que estão cobertos pela neblina que nos desafia o olhar. Sim, é preciso amar e depositar confiança nos outros para que a incerteza do caminho nos faça crescer no coração e na alma de uma vida cheia de luz e felicidade.

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