OPINIóN
Actualizado 02/08/2020
Miguel Nascimento

Há muitos anos um amigo falou-me do efeito boomerang estabelecendo um paralelismo com a nossa vida. Se contemplarmos alguém a lançar o boomerang verificamos que o movimento desse objecto fantástico vai para a frente e volta para trás com, pelo menos, a mesma intensidade com que foi lançado. Tudo o que fazemos na nossa vida tem consequências boas e más em função das nossas acções. Quando alguma coisa corre mal temos tendência para apontar o dedo aos outros de forma a justificarmos os nossos fracassos e insuficiências. Raramente fazemos uma reflexão interior no sentido de percebermos melhor as nossas atitudes e se elas contribuíram de alguma forma para as consequências do efeito boomerang que podemos sentir em determinado momento da nossa vida. Na mesma linha de pensamento, um ancestral provérbio árabe diz-nos que "a árvore quando está a ser cortada observa com tristeza que o machado é de madeira." Se reflectirmos um pouco na profundidade desta sabedoria, espelhada no corte de uma árvore, verificamos, de imediato, muitas semelhanças connosco, nomeadamente quando sofremos por alguma coisa. Na verdade, o cabo de madeira que ajuda a derrubar árvores é feito de nós e das nossas acções. No caminho da vida tombamos tantas vezes sem percebermos que os cortes mais profundos podem vir de nós e de pessoas do nosso círculo mais próximo. Cortamos árvores com cabos de madeira a suportarem as lâminas afiadas que desferem golpes mortais. Depois, com as árvores no chão, arrancamos-lhes as entranhas para fazermos mais cabos de madeira que suportarão outras tantas lâminas que farão, sem piedade, o seu corte infinito, derrubando tudo o que se deve manter de pé. Se quisermos respirar melhor na nossa caminhada temos que deixar de construir machados para que as árvores fiquem onde devem ficar, orgulhosamente na vertical e sempre com os olhos postos no céu. Sem machados e efeitos boomerang libertaremos as nossas amarras para vivermos uma vida mais livre e justa, repleta de amor e alegria. Entretanto, nesta nossa safra da bondade, nunca nos podemos esquecer que existirão sempre ervas daninhas que crescem junto de nós com vontade de construírem machados com cabos de madeira. Temos que estar atentos e vigilantes sem deixarmos de viver o que devemos viver respirando o doce perfume que nos é oferecido com amor por todas as árvores que estão em pé.

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