OPINIóN
Actualizado 23/10/2016
Miguel Nascimiento

Vivemos num mundo absolutamente gelatinoso. A velocidade estonteante a que as coisas acontecem deixa-nos confusos. É preciso seguir a corrente, dizem uns. Adaptar-se aos tempos é uma simples questão de sobrevivência. E em tempos de pouca abundância é preciso deixar de lado certas convicções para escaparmos melhor entre os "pingos da chuva". Vai-se andando, dizem outros. A vida corre ao sabor de quem tem poder e dos que tudo fazem para obter poder. Nesse caminho estranho e perigoso as convicções estão sempre na sombra porque atrapalham! Pesam muito na algibeira! Por isso, são colocadas de lado para que se possa seguir em frente. É preciso chegar à frente e alcançar o poder. E temos que chegar depressa. Antes dos outros! Se for necessário pregamos-lhes umas rasteiras para que rebolem pela encosta abaixo. Assim temos menos concorrência. Não lhes queremos mal, apenas desejamos que não se intrometam no nosso caminho. Ora, quando os caminhos que levam ao topo fazem com que se coloquem de lado as convicções também se pode ver do topo um mundo gelatinoso, sem ideias fortes, sem lideranças fortes e, finalmente, sem outra opção que não seja a de rebolar pela montanha abaixo arrastando tudo o que surgir na trajectória descendente e humilhante! Nestes casos impõe-se a pergunta: então para que desejavam, tão ardentemente, chegar ao topo e agarrar o ceptro do poder? Era para isto? Para um completo vazio? Este tempo que vivemos precisa, urgentemente, que se convoquem todos os homens de convicções fortes e determinadas para que o mundo possa avançar para um patamar mais humano e solidário, onde o equilíbrio, a sabedoria e os afectos possam reinar no cimo da montanha. Afinal o que é um homem sem convicções? Para Vergílio Ferreira "uma convicção num jovem é uma desordem, num adulto, um equilíbrio, num velho, uma mania." O homem precisa que as convicções atravessem as diversas fases da sua vida para que a luz não se extinga e a humanidade na ceda às tentações frias e calculistas dos que não têm alma porque estão apenas concentrados na obtenção de poder para com ele preencherem o seu imenso vazio. Há homens que estão dispostos a tudo para alcançarem o poder! Há homens que estão dispostos a tudo para não perderem as suas convicções! Um deles, Nelson Mandela, disse-nos que "ir para a prisão por causa das próprias convicções e estar preparado para sofrer por aquilo em que se acredita, é uma coisa que vale a pena. É uma proeza um homem fazer o seu dever na terra, independentemente das consequências." Estes tempos complexos e duros reclamam que as convicções deixem as sombras onde foram colocadas e que subam também à montanha para afirmarem caminhos equilibrados e justos que, acima de tudo, reconheçam o mérito e o amor daqueles que caminham convictos do que querem fazer. E as convicções, como nos diz José Luís Peixoto, "só existem quando nos transformamos nelas, somos a sua representação física." Também por isso e fundamentalmente para todos os que se transformam nas suas convicções existe um perigo a ter em conta como nos alertou Antoine de Saint-Exupéry: "não transformes as tuas convicções em pedras." Os homens não devem fazer das suas convicções muros intransponíveis que não deixem ninguém passar, criando bloqueios desnecessários. A força das convicções reside no equilíbrio entre as duas margens de um rio. Afirmar convicções que permitam seguir por uma caminho de luz exige muita sabedoria, tolerância e afecto, sobretudo se quisermos que nos acompanhem os que de momento andam cegos e vazios com tanta ânsia de poder. A vida encarrega-se de colocar as coisas no seu devido lugar. Mas para isso é preciso que cada um cumpra o seu papel e se esforce, até ao limite das suas forças, para promover o equilíbrio que tanta falta faz nos tempos que correm. Recordo outra vez Vergílio Ferreira para desejar que as convicções não sejam uma mania mas sim uma grande ponte de promoção de todos os equilíbrios!

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