Sábado, 21 de julio de 2018

A importância da viagem ao deserto

“O que dá beleza ao deserto é que esconde um poço de água em qualquer parte.”  Antoine de Saint-Exupéry

Um dia todos devemos realizar uma viagem ao deserto! Essa viagem é absolutamente necessária! Pode ser imposta pelas circunstâncias do tempo. Pode ser voluntária e assumida como uma questão de relevo maior. Pode ser um capricho do destino! Em qualquer dos casos devemos ir. E podemos ir sem sair do mesmo lugar. O deserto não é o lugar físico, esse enorme manto de areia! O deserto é um lugar de tomada de consciência e um espaço de encontro connosco. Podemos e devemos inspirar-nos nas areias quentes e frias para, sem as distracções que o vazio não tem, procurarmos e encontramos a nossa alma. No deserto, sem necessidade de atendermos aos sinais de todos os dias, para sabermos se é preciso virar à esquerda ou à direita, resta-nos apenas caminhar na direcção de nós e no sentido da nossa busca interior. Ali, no meio do silêncio, o telefone não toca. Ninguém nos convoca. Todos se esquecem de nós porque nos julgam perdidos. No deserto que é também lugar de todas as privações e tentações, sucumbimos apenas perante nós e somos sempre esmagados pela força da natureza que nos envolve. Ali, naquele manto de paz e de inquietação, conseguimos ouvir-nos e conversar connosco. Nada nos distrai. Olhamos em frente e não vemos nada para além de uma enorme caixa de areia que invade a nossa visão. Desejamos seguir em frente mas não tomámos cuidado com o percurso. Não nos preparámos! Entregámo-nos ou empurraram-nos para aquela geografia do mar das areias quentes e frias. Olhamos para cima, para as estrelas. Sentimo-nos agradecidos e percebemos que algo nos acompanha na viagem. Temos sede, fome e frio. Andamos em círculos. Partimos e regressamos ao mesmo lugar. Sentimo-nos perdidos, sem norte! Estamos cada vez mais exaustos! Parece que vamos morrer! Percebemos que ninguém quer saber de nós apesar de nos sentirmos inexplicavelmente acompanhados. No meio de toda a convulsão emocional e física começamos a ouvir-nos com mais intensidade e clareza. A nossa humana dimensão reclama o direito à resistência e à sobrevivência. O nosso instinto animal reage às circunstâncias! Estamos fracos mas sabemos, como disse Antoine Saint-Exupéry, que o deserto sempre “esconde um poço de água em qualquer parte!”. Percebemos que é aí que reside a sua beleza e também o seu grande mistério. Nesse momento o deserto abraça-nos! Fala-nos e ajuda-nos a decifrar todas as mensagens há muito encriptadas! É então que acontece a aurora como declarou Jorge Luís Borges. Acordamos do sono demorado e recebemos a luz depois de um tempo de trevas. Percebemos melhor quem somos e o muito que ainda temos para caminhar. Mas agora guiamo-nos pelas estrelas. Continuamos sem saber o caminho para lá da duna que avistamos no horizonte. Mas confiamos! Confiamos em nós e em quem nos guia! Seguimos em frente, sem medo! Temos confiança! E, sobretudo, já não temos pressa em chegar! Aprendemos a amar a viagem! Aprendemos a encontrar seiva no meio das areias. Chegamos ao poço e saciamos a nossa sede. Mas não nos perdemos nesse conforto. Seguimos viagem porque nos queremos descobrir mais. Seguimos mais tranquilos. Vamos e somos como o pensamento de Sebastião da Gama. O destino é ali à frente. Ou talvez não. Talvez seja apenas uma paragem para reflectirmos e aprendermos mais sobre nós e sobre os outros. Gostei da lição e de caminhar sobre as areias quentes e frias do deserto. Sim, não me esqueço: nada se faz sem sofrimento, muito menos a aprendizagem de nós! Mas, agora, aos primeiros raios de sol da manhã estou disposto a aproveitar até que a noite chegue. Aí, nesse tempo de pausa do guerreiro-caminhante, aqueço-me na fogueira de todos os sonhos que nenhuma tempestade de areia poderá destruir. Sim, nesse momento serei feliz, nem que seja apenas por instantes!