Domingo, 24 de junio de 2018

Crónicas da arte de hesitar

“A vida é a hesitação entre uma exclamação e uma interrogação. Na dúvida, há um ponto final.”  Fernando Pessoa

No caminho da nossa vida deparamo-nos, vezes sem conta, com momentos de hesitação. Ou seja, hesitar faz parte da viagem. Uns hesitam mais e outros hesitam menos. Mas todos hesitam! E isso é bom ou mau? A hesitação é sinónimo de fraqueza, instabilidade emocional ou falta de confiança? Ou, pelo contrário, significa ponderação, reflexão, equilíbrio, racionalidade e temperança antes de uma decisão complexa? Não tenho respostas directas para estas questões do nosso caminho. A hesitação está presente na nossa travessia. Temos que lidar com ela, aprender, escutá-la e sentir-lhe os passos. Às vezes, sem nos darmos conta, falamos com “os nossos botões” e nessa conversa sempre animada (mesmo que pareça um monólogo) perguntamo-nos se vamos ou não vamos, se vamos para esquerda ou para a direita ou ainda se vamos para cima ou para baixo! Hesitamos tantas vezes sobre a forma de dizer as coisas… e o nosso coração (esse expoente máximo da hesitação) quantas vezes não hesita, não balança e não vacila? Não somos de ferro! Hesitamos muito na nossa humana dimensão! Perdemo-nos e encontramo-nos em todos os caminhos errantes em que mergulhamos a nossa alma e o nosso corpo. Subimos e descemos serras sem fim. Percorremos quilómetros e quilómetros à procura do sentido das coisas. Dizemos sim e não muitas vezes. E em tantas outras hesitamos entre o sim e o não! Quem hesita tem dúvidas. Não tem certezas absolutas sobre a direcção da viagem. Hesita, portanto! Mas há para aí gente que está cheia de certezas! Gente que não tem dúvidas! E do alto de todas as certezas exibem a sua arrogância bacoca e também todo o esplendor da sua estupidez. Mas, entre uma coisa e outra há espaço e tempo para que tudo aconteça. Ou seja, não podemos fazer quase tudo sem pensarmos nas consequências e nos resultados. Por outro lado, a hesitação não pode ser tão densa que alimente o medo de fazer, provocando a estagnação das coisas. Quantas vezes hesitamos entre arriscar ou não numa determinada direcção? E quantas vezes nos sentimos paralisados e vítimas das nossas próprias ponderações e hesitações? Se avançarmos por ali podemos perceber que o caminho certo era, afinal, por além! No entanto, se ficarmos eternamente à espera (e sobretudo enredados nas nossas cogitações e hesitações) também não vamos a lado nenhum! Para Fernando Pessoa “a vida é a hesitação entre uma exclamação e uma interrogação. Na dúvida, há um ponto final.” O nosso caminho está repleto de dúvidas e incertezas. Encontramos muitas perguntas sem resposta. Perguntamos e interrogamo-nos inúmeras vezes sobre tudo, mas também encontramos lugares para a exclamação e para o espanto. Entre uma coisa e outra vivemos hesitando entre exclamações e interrogações como nos disse Pessoa. Mas haverá sempre um ponto final para rematar a história! E nesse momento já não haverá lugar para o futuro. Nesse momento apenas restará a memória e a geografia de todos os balanços do passado. Apesar dessa circunstância fundamental, julgo que devemos praticar, de forma abundante, a arte da hesitação para amadurecermos as nossas opiniões, decisões e comportamentos. Mas não nos podemos esquecer que viver é decidir, errar e seguir pelos caminhos que o nosso instinto indica, mesmo que depois se verifique não serem os mais correctos. A vida é o tempo da surpresa, do encanto e do espanto! Há instantes sobre os quais não se pode hesitar! Há tempos de tudo ou nada em que reina a vontade férrea entre o partir e o ficar. Todos hesitamos! Ainda bem! Mas encontremos um caminho de equilíbrio entre as nossas dúvidas, mais ou menos profundas, e a vontade de fazer, decidir e, sobretudo, de partir! Simplesmente, não podemos ficar no meio da ponte sob pena de não pertencermos a uma margem ou à outra! Às vezes temos mesmo que partir, apesar ou nevoeiro denso ou do manto negro da noite, deixando todas as hesitações dentro da caixa do nosso medonho conforto, para nos metamorfosearmos naquilo que somos!