Miércoles, 22 de noviembre de 2017

A sustentável leveza do inevitável.

“O destino destina, mas o resto é comigo.” Miguel Torga

No nosso caminho há coisas inevitáveis. Não podemos fazer nada para as alterar. O que é inevitável, por mais que façamos para o evitar ou adiar, pode tornar-se um fardo demasiado pesado para quem caminha. E de qualquer modo vai acontecer. É inevitável. Por isso, devemos aceitar com coragem e resignação o que tem que acontecer. Podemos fazer tudo o que está ao nosso alcance para evitar que coisas más nos aconteçam. Mas há outras, muitas outras, que não estão ao nosso alcance. O cosmos traça-nos as linhas do caminho. E nós seguimos ou não o seu trilho. Como dizia Miguel Torga, “o destino destina, mas o resto é comigo.” E nesse sentido talvez não possamos alterar o que o destino nos tem destinado. Mas seguramente que podemos fazer com que o inevitável se torne mais leve e mais sustentável. Também por isso devemos, ao longo da jornada, seguir o grande conselho que Carlos Drummond de Andrade nos deixou: “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.” Se nos tornarmos mais leves caminhamos de forma mais sustentável mesmo que o inevitável aconteça como tem que acontecer. É preciso coragem para aceitarmos o que não desejamos aceitar e, sobretudo, para enfrentarmos a dura realidade quando ela não nos devolve a doçura que emprestamos à vida. Cada um de nós olha para o destino como entender. Uns acreditam outros não. Prefiro aceitá-lo e aprender as lições de cada etapa do caminho. Às vezes podemos fintá-lo e fazer como o Torga porque o “resto é comigo.” Sim, está nas nossas mãos aguentar o que é preciso aguentar e aceitar o que é preciso aceitar. A partir daí podemos seguir pela leveza das coisas e largarmos o que nos pesa para deixarmos espaço para vivermos um dia de cada vez, como se fosse um compartimento estanque. O poeta e escritor James Russell Lowell avisou-nos que “não adianta discutir com o inevitável. O único argumento disponível contra o vento de leste é vestir o sobretudo.” Às vezes precisamos de vestir o sobretudo para nos abrigarmos das ventanias. Não resolvemos nada. Os ventos continuarão a soprar. É inevitável que isso aconteça, principalmente nas longas e frias noites de Inverno. Mas com o sobretudo vestido suportamos melhor os ventos que sopram na nossa direcção. A tempestade acabará por passar. E depois o resto é connosco! Ao procedermos desta forma, ao aceitarmos o inevitável, não significa renunciarmos à luta e à nossa capacidade de reagirmos contra as adversidades que se atravessam no nosso caminho. Isso seria seguirmos pelas veredas do fatalismo que a tudo baixa os braços. Nada disso! Devemos ter alma e coração fortes para reagirmos a tudo o que pudermos. Devemos alterar tudo o que é possível alterar para que o nosso caminho seja percorrido com menos sacrifício e, sobretudo, com mais prazer. Mas, como sabemos, a vida não tem só coisas boas. Também tem coisas más. E algumas são demasiado poderosas para os nossos argumentos. É aí que devemos aceitar o que é pesado para nos tornarmos mais leves para as coisas boas, para as aproveitarmos melhor, para darmos e recebermos mais amor. A vida é um instante e também um imenso sorriso de soubermos aproveitar cada etapa do caminho. Devemos ir à luta todos os dias e enfrentar todas as tempestades. Mas também não nos podemos esquecer de vestir o sobretudo para nos protegermos e para sentirmos a sustentável leveza do inevitável. Se assim fizermos será também inevitável que a tempestade passe e que o sol volte a rasgar o horizonte todas as manhãs. Só temos que nos adaptar e seguir o caminho da felicidade através da valorização do que verdadeiramente importa.