Lunes, 23 de octubre de 2017

OS FINGIDORES

O fingidor é aquele que finge. Aquele que finge o que não é. Existem também os outros que fingem o que são. Ninguém se iluda, somos todos somos fingidores! Todos fingimos que estamos bem quando, por vezes, não estamos. Quando nos cruzamos na rua com os interlocutores do nosso dia-a-dia respondemos sempre afirmativamente à pergunta – está tudo bem? Sim, está tudo bem, obrigado!...dizemos isso como se fosse uma resposta automática, um acto de boa educação e a expressão de uma convenção social. Num determinado momento pode estar tudo bem e essa resposta é absolutamente sincera e verdadeira. Mas quando não está, e muitas vezes não está tudo bem, ao dizermos que está estamos a entrar no jogo do fingimento. Na nossa comunidade e na construção social das nossas vidas há muito fingimento. Mas o fingimento é um como uma escada com muitos degraus. E nela acontecem todos os jogos e desfilam todas as máscaras. O fingimento é uma parte da máscara que também todos colocamos para os outros e, fundamentalmente, para nós. O fingimento é um mecanismo de protecção. É uma máscara que cria uma zona de conforto entre a nossa verdade e a verdade dos outros. Como disse Clarice Lispector, “escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano.” Sim, na verdade ela é uma protecção, um escudo que utilizamos para nos protegermos do mundo exterior e tantas vezes do nosso universo interior. Sem máscara e sem fingimento sentimo-nos despidos, sem a roupa que nos protege e salvaguarda. A máscara e o fingimento são fortalezas que nos protegem mas que também nos isolam. É por isso que, como em tudo na vida, precisamos de equilíbrios. De vez em quando a máscara deve ser colocada de lado para sentirmos o vento soprar na nossa nudez. Sem ela sentimo-nos expostos e fragilizados. Mas somos nós na nossa verdadeira condição humana! Sem dissimulações e fingimentos! Tirar a máscara é sempre um bom exercício! E colocá-la também é! Tudo tem o seu momento. No caminho de vida já conheci pessoas com demasiado fingimento e outras sem fingimento algum. As primeiras, para além de serem muito perigosas, para elas e para os outros, fingem a tal ponto o que não são que chegam a acreditar que são o que não são, mesmo sem saberem muito bem o que desejam ser. As segundas, também são perigosas, para elas e para os outros, porque quando entram no jogo das relações interpessoais são como elefantes em lojas de loiça; ou seja, quando se mexem partem tudo à sua volta! O poeta é um fingidor dizia Fernando Pessoa num dos seus poemas mais conhecidos. E é um fingidor que “finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.” Estas frases poéticas dizem mais do que pode ser interpretado numa primeira leitura. Há muito mais significado do que a arrumação aparentemente simples destas palavras. Mas para o caso em apreço chega a inspiração do poeta fingidor - que finge o que deveras sente - para a transportarmos para o nosso fingimento de tantas etapas onde, repetidamente, o nosso coração bombeia emoções. Como referi, todos somos fingidores e todos usamos máscaras. É uma espécie de regulação social. Mas, cuidado! Cuidado, sobretudo, com os fingidores que fingem o que não são para ganharem vantagem pessoal sobre os outros, nomeadamente em terrenos gelatinosos e de pura hipocrisia. As pessoas verdadeiras e que fingem apenas a dor que sentem são apanhadas de surpresa na curva imposta pelos grandes fingidores quais mestres da arte da dissimulação. Cuidado com eles que são verdadeiramente perigosos! Estão em todo o lado, nas pequenas e nas grandes coisas. É assim que vão conseguindo o que querem. Fingem o que não são. Riem-se sem vontade. Riem-se de todos os que apenas fingem a dor que deveras sentem. Chegam-se à frente, pisam tudo e todos para alcançarem os seus objectivos. São hipócritas e maus. Mas vão conseguindo e vão-se rindo dos outros que ficam para trás. Para eles o fingimento é a arte da sobrevivência. Mas, apesar do sucesso aparente, os fingidores viverão sempre num fingimento, repleto de máscaras e numa vida que não é o que parece nem parece o que é. É uma coisa fingida, com arte, mas sem coração. È também por isso que sempre gostei do que Bob Marley escrevia, dizia e cantava: “Ideal seria que todas as pessoas soubessem amar, o tanto que sabem fingir.” É também por isso que tantas vezes me deixo embalar nas palavras dos poetas para fingir o próprio fingimento da verdade de todos os dias.