Martes, 26 de septiembre de 2017

Pessach

A Páscoa é uma palavra forte, densa e profunda. Vem do hebraico Pessach que significa passar além ou passagem. Este é um tempo de passagem. Somos homens e mulheres de muitas passagens. A Páscoa é um tempo novo. Um tempo de renovação, de reflexão e, acima de tudo, de ressurreição. Nesta passagem como expressão maior de um sentir religioso profundo devemos perceber que o seu significado vai muito para além de tudo o que vemos e sentimos. A Páscoa encerra em si diversas interpretações e momentos simbólicos. Convoca-nos para o diálogo ecuménico e para a convergência de todos os homens e mulheres de boa vontade. Este tempo é de profunda inquietação sobre todos os pecados do mundo e de reflexão sobre todos os cordeiros que são chamados ao sacrifício para a sua expiação. A Páscoa é a celebração da libertação do povo hebreu que durante 400 anos foi acorrentado à escravatura pelos poderosos faraós do Egipto. É a passagem da escravidão para a liberdade. Mas, é também a nossa libertação! A libertação de nós e de todas as nossas escravaturas. É tempo também de nos libertarmos de todos os medos e de todas as angústias. É tempo de abrirmos o nosso coração à esperança e à liberdade que o caminho traçado por nós nos proporciona. É tempo de nos concentramos no nosso processo individual para dialogarmos connosco, de forma absolutamente franca, sobre os caminhos trilhados até aqui. Ao longo da Semana Santa e de todo o período da Quaresma recolhemo-nos e mergulhámos na nossa intimidade. Recriámos uma atmosfera de sofrimento. Repetimos a história ancestral. Interpretamos e reinterpretamos as tradições religiosas e pagãs. Reproduzimos momentos de um tempo longo, histórico, religioso e de grande dimensão espiritual. Este é o tempo de eleição do calendário religioso, nomeadamente para os cristãos católicos. Mas é também um tempo de congregação de Judeus e Católicos, Romanos, Ortodoxos e outros. É um tempo de reunião. É uma plataforma de convergência da espiritualidade. É um tempo fundacional. Inspiramo-nos em Jesus Cristo, sentimos a sua dor, acompanhámo-lo no caminho até ao calvário. Não sei quantas vezes o negámos. Não sei quantas vezes o negaríamos em situação real. Não sei quantas vezes o negamos na nossa vida de todos os dias. Não sei quantas vezes não seguimos os seus princípios e valores. Sei muito pouco sobre tantas hesitações e tanta falta de determinação sobre os caminhos da fraternidade. Sei apenas que devemos ter mais consciência do nosso caminho e que o devemos assumir com todas as nossas forças. Devemos sempre acreditar no que fazemos. Por isso, este é também um tempo de mudança, de transformação e de recomeço. Recordamos o anjo da morte e o sacrifício dos cordeiros para salvarmos os nossos. Sabemos que o anjo da morte anda sempre por aí. Recorda-nos a nossa imensa fragilidade. Mas, desejamos agarrar-nos a vida. Também por isso a devemos celebrar enquanto passamos por ela. Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar. Passou por nós para nos abrir o caminho, a passagem para outra dimensão, mais justa e espiritual. Neste tempo devemos inspirar-nos no seu exemplo de humildade e de sacrifício para, pelo menos, conseguirmos partilhar o pão e o caminho que devemos trilhar. Em conjunto, devemos construir uma comunidade melhor, mais verdadeira e solidária. A cruz surge-nos muitas vezes no caminho. É poderosa! Recorda-nos, entre muitas coisas, que também nos devemos sacrificar por causas mais comunitárias e de valor maior do que a nossa simples individualidade que começa e acaba no reflexo da nossa imagem no espelho. Precisamos de saber ver mais além. Precisamos de ir mais além! Precisamos de viajar pelo nosso interior, pelo nosso lado de dentro, para percebermos os sinais que o nosso coração está a emitir. A vida é uma passagem. Devemos passar por ela em paz, limando todas as nossas arestas, despojando-nos das nossas pequenas vaidades para agarrarmos a dimensão da humildade que o caminho reclama para nos deixar seguir em frente. A Páscoa é uma passagem e uma grande lição de amor e solidariedade. Saibamos percorrer todos os itinerários do sentir para, em diálogo com a nossa intimidade, conseguirmos apreender o seu verdadeiro significado… para passarmos mais além.