Lunes, 11 de diciembre de 2017

A ilusão, essa fé desmedida.

A ilusão, essa fé desmedida, como referiu Balzac, faz-nos sempre falta na nossa viagem. Sem ilusão ficamos demasiado amarrados às evidências e às coisas que são facilmente perceptíveis pelos nossos apurados sentidos. Porém o nosso caminho reclama sempre o encanto a que todos temos direito. Tudo o que podemos ver e tocar está ali ao nosso alcance. Não tem mistério nenhum. Podemos contemplar o belo que está diante dos nossos olhos mas ganhamos encanto se nos dispusermos a ir mais além à procura da ilusão que engana os sentidos e a mente. Mark Twain disse-nos para não abandonarmos as nossas ilusões porque sem elas podemos continuar a existir, mas deixamos de viver. Oscar Wilde foi mais longe catalogando a ilusão como “o primeiro dos prazeres”. Gosto em particular de uma expressão muito utilizada em Espanha para caracterizar a circunstância do vou “con ilusión” ou espero “con ilusión”. Trata-se de uma forma extraordinária de semear esperança onde às vezes ela falta ou de afirmar um pensamento positivo em tudo o que se pretende fazer. Nesse sentido, a ilusão é também uma fé desmedida, uma vez que acreditamos sempre que conseguimos alcançar o nosso propósito mesmo que os nossos sentidos nos indiquem que estamos perante uma missão impossível. Aí vamos nós, no nosso caminho, “guiados por uma ilusão” como dizia Fernando Pessoa. E é essa ilusão que nos alimenta e nos dá esperança, nomeadamente nos momentos mais difíceis. A ilusão pode ser também a troca da aparência real por uma ideia falsa ou um sonho, um devaneio, um produto da imaginação. Por vezes, temos que nos deixar levar nas asas da ilusão porque a realidade é demasiado terrível. Precisamos de pintar com todas as cores os quadros cinzentos do nosso quotidiano para criarmos a ilusão de que, mais à frente, o caminho nos devolverá o sol que os dias de chuva nos roubaram! Nesse sentido, a ilusão é também um suplemento de motivação. Mergulhamos tantas vezes de forma consciente no engano para absorvermos novas cargas de energia de forma a continuarmos a caminhada dura dos dias que vivemos. Como dizia Victor Hugo, “as ilusões sustentam a alma como as asas sustentam o pássaro”. A ilusão é amiga da esperança e companheira do sonho. Os nossos sentidos apuram-se como o caldo para apreendermos melhor a realidade que temos pela frente. Mas quanto mais vemos menos queremos ver. Precisamos de uma pausa para descansar e continuar o caminho. Nesse momento em que nos encontramos esgotados, exaustos e praticamente sem forças para seguirmos viagem devemos “con ilusión” olhar para as estrelas e depositar a esperança num novo amanhecer mais doce. Se conseguirmos seguir em frente apesar das dificuldades do caminho é porque fomos autênticos “mestres da ilusão” e fiéis depositários de uma fé desmedida. Assim, “con ilusión”, atravessamos a fronteira da simples existência e vivemos com outro significado e com mais cor no nosso horizonte. E é precisamente essa capacidade que cada um de nós tem que deve ser estimulada para que esta vida tão curta tenha sempre sonhos tão extraordinários que possam ser sempre sonhados com o prazer que merecemos mesmo que a realidade das coisas que sonhámos esteja muito distante do ponto em que nos encontramos. O caminho será sempre uma aventura e uma enorme felicidade se nos deixarmos envolver pela ilusão que queremos despertar.