Sábado, 16 de diciembre de 2017

É preciso descomplicar a vida!

Não leve a vida muito a sério, você nunca sairá vivo dela:”

Elbert Hubbard

 

Há dias na bonita cidade das “pedras douradas” (Salamanca) encontrei esta frase escrita numa das suas paredes: “No tomes la vida tan en serio. Nadie sale vivo”. Confesso que não sou grande admirador de frases escritas nas paredes, nomeadamente quando elas acontecem de forma aleatória e sem qualquer enquadramento de arte urbana. Mas, por outro lado, penso no que seria uma cidade sem a expressão de quem nelas habita. O desenho da frase é a impressão digital de quem a escreveu. É o sentir do coração. Mas, o significado da frase é muito poderoso e foi, como tantas coisas, ao meu encontro. Obrigou-me a reflectir muito, como sempre que estas coisas me acontecem. O filósofo norte-americano Elbert Hubbard escreveu um dia uma frase parecida com a desta parede da cidade de Salamanca: “Não leve a vida muito a sério, você nunca sairá vivo dela”. O grande Bob Marley disse praticamente o mesmo: “Para quê levar a vida tão a sério, se a vida é uma alucinante aventura da qual jamais sairemos vivos”. Não sei se estas frases escritas por três autores diferentes se formaram através de uma cascata inspiradora. Pela cronologia das coisas do tempo talvez Elbert Hubbard tivesse inspirado Bob Marley e, por sua vez, a mão que escreveu a frase que veio ao meu encontro tivesse bebido da magia que o pensamento do rei do reggae ainda hoje provoca, sobretudo às novas gerações. Não sei o que aconteceu. Sei apenas que me interroguei de imediato. Levamos a vida demasiado a sério ou não? Complicamos ou descomplicamos? Devemos tornar a nossa vida mais leve? No fundo, somos felizes ou não? A nossa vida é complexa na medida em que ela é construída por seres humanos com virtudes e defeitos. Na maioria das vezes estamos tão concentrados nos defeitos e nos problemas que nos esquecemos de atravessar a ponte para avistarmos os campos verdes iluminados pelo sol da esperança. A este propósito lembro Machado de Assis na medida em que “há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinhos. Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!” Infelizmente andamos distraídos ou demasiado focados nos espinhos e menos nas rosas, na sua belíssima elegância ou na excelência do seu perfume. No nosso caminho não sabemos se o trajecto que estamos a efectuar é o mais correcto. Erramos muitas vezes. Seguimos por caminhos errados e quantas vezes não temos que voltar atrás e percorrer as mesmas distâncias em novos caminhos? Não precisamos saber sempre qual é o caminho correcto. A vida não nos exige isso! Pede-nos apenas que continuemos a nossa caminhada e de preferência escutando a nosso coração. Não devemos pensar em tudo o que fazemos numa lógica de causa e consequência como se a vida fosse um tabuleiro de xadrez. A vida é para ser vivida. E tudo se torna simples quando assim procedemos. De resto, como disse Oscar Wilde, “a vida é muito importante para ser levada a sério.” Por isso, temos que retirar peso à vida! Temos que nos tornar mais leves. Cada um de nós encontrará o caminho que entender. Mas, como nos indica a sabedoria oriental devemos prender-nos cada vez menos às coisas materiais e desejá-las em menor escala. Se tivermos menos e pensarmos menos nas coisas que desejamos estaremos mais leves para a caminhada. Precisamos sempre de uma boa cabeça e de um bom coração. Mas nunca das coisas que apenas nos provocam ansiedade. Devemos deixar ir o que nos pesa e que nos dificulta a caminhada. Não devemos correr de um lado para o outro e alimentar o frenesim constante das nossas vidas. Precisamos de parar para respirar, ouvir o chilrear dos pássaros, cheirar as rosas e mergulhar nas águas dos rios e saborear a brisa do mar e das montanhas. Devemos simplesmente ir. Sim, e devemos caminhar devagar, acompanhados por aqueles que verdadeiramente gostam de nós. Juntos, faremos uma boa caminhada, mais leve e mais divertida. Devemos rir de nós e com os outros. Devemos soltar a emoção e paixão. Devemos descomplicar e estimular a boa disposição que nos alivia das coisas menos boas que a vida sempre nos trará. Também por isso, devemos prestar mais atenção ao que Thomas Paine nos disse: “eu admiro aqueles que conseguem sorrir com os problemas, reunir forças na angústia, e ganhar coragem na reflexão. É coisa de pequenas mentes encolher-se, mas aquele cujo coração é firme, e cuja consciência aprova a sua conduta, perseguirá seus princípios até à morte.” É mais difícil ser leve do que pesado! Custa muito deitar coisas fora! Mas é esse o caminho que devemos seguir para não levarmos a vida tão a sério! Se descomplicarmos a vida estaremos a fazer uma boa escolha e a assumir que, acima de tudo, desejamos a felicidade para o nosso caminho!