Viernes, 15 de diciembre de 2017

As duas faces da solidão

Há uma solidão que mata! Outra que nos conforta! Parecem as duas faces da mesma moeda mas são como a água e o azeite. São muito diferentes e nunca se misturam. Ao longo da nossa vida podemos conhecer as duas. Não sabemos o que o destino nos reserva. Mas, se mantiver intacta a minha capacidade de escolha sempre prefiro a segunda, à qual recorro tantas vezes! E nessa escolha que a vida me tem permitido fazer tenho procurado saborear os momentos de solidão povoando-os com todos os sonhos do mundo. Como nos diz Fernando Pessoa “enquanto não atravessarmos a dor da nossa própria solidão continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um”. E se neste meu caminho encontro, por vezes, a solidão, encaro-a sempre como uma oportunidade para me escutar e para continuar a construção do meu ser por inteiro, cumprindo sempre as tarefas de turno de um trabalho inacabado. Aí a solidão jamais me matará. Aí a solidão será sempre aprendizagem e um sentimento do que sou. Arthur Schopenhauer disse, a este propósito, que “cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é”. Neste contexto, a solidão é como um espelho para o qual devemos olhar muitas vezes para não nos perdermos no barulho da multidão e para não nos dispersarmos de nós! Gosto desta solidão que me faz crescer! Às vezes vou ao seu encontro. Outras vezes é ela que me encontra! Sempre posso dizer, como António Lobo Antunes, que “não me sinto mal na minha companhia, divertimo-nos muito os dois, eu e eu. Não me aborreço”. Mas, a outra face da moeda da solidão é muito mais perigosa. Essa solidão mata! Os tempos que vivemos têm transformado os nossos espaços urbanos, os grandes e os pequenos, em zonas de grandes metamorfoses sociais. Há mudanças muito significativas na vida das pessoas. O envelhecimento da população e a mudança nos comportamentos sociais tem vindo a quebrar as redes de proximidade. Hoje há cada vez mais pessoas a viver sozinhas e sem qualquer tipo de apoio. A solidão entranha-se pouco a pouco na vida das pessoas, provocando uma morte lenta. A depressão é um dos primeiros sinais. A solidão procura solidão. As pessoas isoladas tendem a isolar-se cada vez mais. Paulatinamente as pessoas vão percebendo que a solidão é a sua companhia. Aí o rosto assume um ar carregado, perde-se a esperança! Quantos não vivem sozinhos nestes grandes e pequenos espaços urbanos onde parece haver tudo e, por vezes, não há nada, como um amigo para tomar um café, para dois dedos de conversa ou, simplesmente, para apoio numa situação de doença e outra qualquer necessidade! Corremos de um lado para o outro. Participamos na corrida de uma autêntica roda livre sem destino. Deixamo-nos anestesiar por isto e por aquilo. Perdemos o toque e o afecto. Vivemos, por vezes, uma solidão acompanhada. Estamos no meio da multidão mas sentimo-nos sós porque ninguém tomará um café connosco nem ouvirá a nossa história. Estão todos com pressa e a correr não sabemos para onde. Depois envelhecemos e vamo-nos acomodando às circunstâncias da vida. Os filhos construíram a sua vida e nós não estamos para os chatear. Ficamos sozinhos com a nossa imensa solidão. Vamos morrendo aos poucos. Vamos morrendo devagar, mas com uma dor intensa, muito dura e forte. A vizinha do lado também está sozinha mas também não quero incomodar, pensamos baixinho. O vizinho de cima era a minha companhia mas já foi para o Lar e o da frente já partiu para as terras frias sem retorno! A nossa vida cheia de hoje pode tornar-se num imenso vazio amanhã. É hoje que devemos pensar na solidão e limpar com cuidado o espelho onde nos iremos apresentar. Aí podemos ver o futuro daquilo que fazemos hoje. Semeamos para colher. Por isso devemos trabalhar bem a terra para retirarmos dela o melhor que nos pode dar. E se queremos alegria e luz devemos escolher as sementes do amor e dos afectos. Devemos abraçar e beijar aqueles que amamos todos os dias. Devemos ser parte inteira de nós para nunca mergulharmos nesse mar negro que cobre os dias de solidão e tristeza. O tempo é nosso e a solidão também. Rejeitamos a solidão que mata, admirando a outra face da moeda, a outra que nos faz pensar em nós e nas escolhas que fazemos todos os dias.