Jueves, 14 de diciembre de 2017

A inveja, esse pecado mortal!

O Padre António Vieira disse-nos num dos seus estimulantes sermões que “não há coisa boa sem contradição, nem grande sem inveja”… e também que “é consequência própria e natural da inveja, perseguir os presentes e estimar os passados, matar os vivos e celebrar os mortos”. Estas palavras são sábias e ao mesmo tempo funcionam como um espelho do nosso tempo. É também por isso que o pensamento do Padre António Vieira é intemporal para todos os que se debruçam sobre as coisas da vida e, fundamentalmente, sobre a causa das coisas. Não consigo nem quero classificar os outros ou as suas atitudes como anjos ou demónios! Não consigo dividir as coisas segundo o princípio do preto e do branco. Todos temos os nossos dias bons e maus! Porém, aqueles que alimentam a inveja de forma permanente devem ser profundamente infelizes. Estão mais preocupados com a vida dos outros do que com a sua. A inveja é um sentimento terrível e um autêntico pecado mortal! Para o grande Miguel Cervantes “a inveja vê sempre tudo com lentes de aumento que transformam pequenas coisas em grandiosas, anões em gigantes e indícios em certezas”. Há quem não viva uma vida para invejar a vida dos outros! Mas a vida é um instante! Passa a correr! Por isso, não devemos vivê-la como se fosse uma viagem em que passamos o tempo à janela a ver quem passa, sentindo inveja de tudo o que vemos. O tempo é nosso! Devemos vivê-lo com intensidade, fazendo o nosso caminho, saboreando a viagem! Não precisamos de invejosos! Esses não fazem andar o mundo. Não enchem de cores as telas em branco. Não preenchem o vazio. A única animação da vida deles é soltar a inveja todos os dias. A inveja não alimenta as almas. Apenas engana uma quase vida! A inveja é magra e pálida na medida em que morde mas não come. No fundo, é uma ilusão para aqueles que a promovem. É um sentimento feio! Horrível! Mas existe! E às vezes está mais activa que nunca! Há muitas vidas que não são vidas. São vidas dos outros! Esses, de tanto invejarem os outros acabam por morrer sem nunca terem vivido! Basta alguém fazer alguma coisa para ser objecto de inveja. Muitas vezes nem damos conta disso. Há gente que nada faz apenas para se dedicar a invejar os outros. É esse o seu princípio de vida e o grande fundamento da sua existência. Uma existência de nada! Um nada de vida! Um instante que passará no caminho do vazio sem deixar uma única cor. Na hora da morte daqueles fazem termina o tempo dos invejosos! A inveja acaba nesse instante. Nesse momento choram os mortos e tecem louvores àqueles que fizeram coisas que foram invejadas apenas porque foram feitas! Se a vida fosse construída por invejosos não havia nada para dizer ou para invejar. É preciso sempre alguém que faça para outros invejarem o que foi feito. A vida é assim, infelizmente. Por isso, é preciso que exista gente que goste da vida e que faça coisas para a encher de prazer e alegria. É preciso gente que percorra os caminhos do sucesso e do fracasso e que continue a viagem, apesar de todas as invejas. Estamos todos expostos à inveja. E o sentimento de inveja reside dentro de nós. Apenas não o devemos despertar porque temos uma vida para viver e não uma vida para invejar. Não devemos ter medo de fazer, apesar de todos os olhares de inveja. Não devemos ter medo de errar apesar de ouvirmos ao longe os uivos em coro dos invejosos. A vida é um caminho. Devemos percorrê-lo fazendo coisas. Se cairmos... levantamo-nos! Se o número de invejosos for aumentando ao longo da nossa vida isso é, como diz Oscar Wilde, a confirmação das nossas capacidades! Vivam a vida! Não alimentem a inveja dentro de nós. Deixem-na morrer porque ela não alimenta, não cria e não nos dá luz para o caminho! Ela vive acabrunhada debaixo das pedras de uma noite escura. É lá que deve ficar! O sol chama por nós porque temos uma caminhada para fazer e uma vida para viver! Vamos a isso!