Lunes, 18 de diciembre de 2017

Carregar o escorpião nas costas!

Há dias, no âmbito das minhas viagens pelos caminhos da curiosidade, deparei-me com a antiga fábula “o Escorpião e o Sapo”. Esta pequena história “do tempo em que os animais falavam” tem um significado muito profundo e uma actualidade impressionante. A fábula intemporal conta-nos que um dia um escorpião pediu a um sapo que se encontrava à beira do rio para o levar para a outra margem. O sapo ficou muito surpreendido e hesitante com tal pedido. Recusou-o de imediato por ter medo que o escorpião o picasse durante a travessia. No entanto, o escorpião conseguiu convencer o sapo a transportá-lo com um argumento muito racional: se o escorpião picasse o sapo durante a viagem morreriam os dois afogados nas águas do rio. Perante tal evidência o sapo acedeu carregando o escorpião através do rio. No meio do percurso o escorpião pica o sapo de forma letal. Ainda incrédulo e já a perder forças por causa do forte veneno o sapo pergunta ao escorpião: porque fizeste isto? Não sabes que agora vamos morrer os dois? De imediato o escorpião responde: não sei, isto é a minha natureza! Esta história tem muito em comum com as nossas vidas. Muitos assumem o papel do sapo, na medida em que estão sempre dispostos a ajudar quem precisa apesar de todos os receios e dificuldades. Outros têm uma natureza profundamente má e estão sempre dispostos a prejudicar tudo e todos, mesmo aqueles que os ajudam quando precisam. Existem ainda outros que assumem, consoante as circunstâncias, o papel de sapo ou de escorpião. Na verdade, quantos de nós não carregaram escorpiões nas costas? Quantos de nós não ajudaram quem precisava e depois sentiram a dor forte do veneno da injustiça e da ingratidão? A natureza de uns reside na maldade e a natureza de outros mora da bondade, na tolerância, no amor e na ajuda ao próximo. Muitas pessoas vão retraindo a sua vontade natural para ajudar porque ao longo da vida foram levando umas “picadas” valentes. Quando isso acontece, desiludem-se porque estavam iludidas. Porque olhavam o mundo através da sua bondade, esquecendo-se ingenuamente que existem sempre escorpiões dispostos a picar-nos! Mas, por outro lado, aqueles cuja natureza os impele a picar os outros, tantas vezes picando por picar, para fazer mal e magoar, no fundo, são uns infelizes e precisam muito da ajuda daqueles que têm outra luz para o caminho da vida. Por isso, recordo também a pequena história do velho mestre que estava a tentar salvar um escorpião das águas do rio. Mas, quando o fez, o escorpião picou o velho mestre que, reagindo à dor, fez com que o animal caísse de novo nas águas. Mesmo assim, tentou outra vez, e o escorpião picou-lhe de novo caindo novamente nas águas. Um homem que estava ali à pesca, perante aquele episódio, perguntou ao velho mestre porque fazia aquilo sabendo que o escorpião o picaria sempre que pudesse pois essa era a sua natureza. O velho mestre respondeu-lhe: a natureza do escorpião é picar, mas isso não consegue mudar a minha que é ajudar! Nesse momento, o velho mestre, com a ajuda de uma folha, tirou o escorpião da água e salvou-lhe a vida. Transporto, de novo, esta pequena história para as nossas vidas. Não devemos mudar a nossa natureza em função do mal que os outros nos fazem, apenas devemos ter algumas precauções. Uns não gostam da felicidade, perseguem-na, espalhando veneno aos quatros ventos. Outros criam a felicidade e alimentam-na toda a vida! E a natureza da felicidade tem um caminho próprio que não se desvia da rota apesar dos escorpiões saem das pedras, apenas adopta uma atitude cautelar. Não devemos fazer como o sapo. Mas também não devemos mudar a nossa natureza só porque, de vez em quando, temos que carregar alguns escorpiões nas costas. Precisamos é de novas cautelas! Precisamos de ajudar os escorpiões a descarregar o seu veneno porque essa é a sua natureza. Mas, ao mesmo tempo, devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que esse veneno não faça mal a ninguém. Assim evidenciaremos a inutilidade da maldade e do veneno! Mas, mais importante que isso, é continuarmos a cultivar a nossa natureza no amor, na amizade, na solidariedade e na ajuda certa, no momento certo, a quem dela precisa. No nosso caminho encontraremos sempre alguns escorpiões dispostos a picar. Mas, felizmente, a grande maioria estará sempre pronta para ajudar, precisa apenas de providenciar algumas cautelas e ter como referencial a atitude sábia e tolerante do velho mestre!