Domingo, 17 de diciembre de 2017

A ascensão dos abençoados

A tela de Hieronymus Bosch a “Ascensão dos Abençoados” (1490) representa muitos dos aspectos recorrentes das EQM - Experiências de Quase Morte que a comunidade científica tem vindo a estudar e a aprofundar. Trata-se de um quadro tão belo como intrigante. Lá está o tal túnel de que muitos falam … e a luz ao fundo do túnel também! Será essa a luz da esperança numa vida melhor, com mais sabedoria, harmonia e beleza? Será melhor ou pior que o nosso caminho terreno? Para onde vamos depois de morrermos? Há vida para além da morte? Esta tela e o livro de José Cardoso Pires “De Profundis, Valsa Lenta” ajudaram-me, esta semana, a adensar o pensamento e a revisitar estas questões que acompanham a humanidade desde tempos imemoriais. Ainda não resolvi nada em mim sobre esta matéria. Mas, seguramente, comecei a caminhar com mais atenção. Fernando Pessoa disse-nos que “a morte chega cedo, pois breve é toda a vida”. Nós não nos preparamos para a morte. Temos muita dificuldade em lidar com este momento que nos causa sempre tanta dor e sofrimento. O “Horário do fim”, um grande poema de Mia Couto, conta-nos que “morre-se nada quando chega a vez / é só um solavanco / na estrada por onde já não vamos / morre-se tudo / quando não é o justo momento / e não é nunca / esse momento “.  Neste caminho que todos percorremos entre a vida e a morte vou tendo muitas dúvidas e inquietações. Para minha satisfação vou tendo algumas certezas, poucas, mas muito reconfortantes. Steve Jobs apontou, de forma simples, o sentido a seguir ao afirmar que a “lembrança de que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo – expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar – caem diante da morte, deixando apenas o que é importante. Não há razão para não seguirmos o nosso coração!” Neste sentido, entendo que a nossa noção de finitude deve estimular a nossa vida, nomeadamente na realização de uma caminhada com sentido, com amor e paixão … e também com todas as coisas que fazem da nossa existência uma festa, celebrando cada dia, independentemente dos nossos êxitos e fracassos. Nunca estaremos preparados para a hora da partida. Por isso, devemos viver com intensidade e amar a vida como se não houvesse amanhã. E se esse dia for o “horário do fim” então, e se assim procedermos, não nos lamentaremos frente à morte de tudo o que não vivemos. Mas, se há vidas que não são vidas também há mortes que não são mortes. São as experiências de quase-morte, uma delas foi contada na primeira pessoa pelo escritor José Cardoso Pires em “De Profundis, valsa lenta”. E esse relato do escritor é uma coisa impressionante. Um tributo à vida e a expressão de uma grande mensagem: não se esqueçam de viver a vida! A fronteira que separa a vida da morte é muito ténue, especialmente se a enquadrarmos num espaço onde a ciência e a espiritualidade se misturam de uma forma extraordinária. As experiências de quase-morte são um grande enigma. Há relatos fantásticos sobre viagens dentro de um túnel, de subidas aos céus, de desprendimento do corpo, de encontros com familiares já falecidos, de sentimentos de paz e ausência de dor, visionamento do “filme” da vida inteira, entre muitos outros. As visões e sensações associadas a situações de morte iminente constituem um caminho interessantíssimo que pode e deve ajudar a entender melhor a nossa vida e a escolha dos nossos caminhos. Neste processo, a ciência e a espiritualidade estão de mãos dadas e sem preconceitos a trabalhar em conjunto para apurarem melhor todos os sinais que permitam aferir e compreender melhor este fenómeno de sobrevivência do espírito humano à morte física. Há vida para além da morte? Não sei dizer. Tenho apenas a certeza que esta é uma questão tão delicada quanto interessante. Estamos no tempo de novas descobertas e de abertura de “novas portas” para espaços desconhecidos e outros patamares de informação. E neste caminho de descoberta, absolutamente resvaladiço, só o equilíbrio entre a ciência e as diversas dimensões da espiritualidade poderão construir as pontes que nos levem à margem onde estão as respostas para algumas das nossas perguntas de sempre. Até lá podemos sempre contemplar a tela de Bosch e reler “De Profundis, Valsa Lenta”.